Laboratório para Estruturas Flexíveis

23 a 28/Out

O Laboratório para Estruturas Flexíveis é um programa que se estendeu ao longo de um ano discutindo técnicas de gestão de diversas iniciativas culturais. Em um contexto político em que a imaginação de futuros possíveis não pode mais descolar-se da disputa de presentes urgentes, procuramos reunir espaços, iniciativas e coletivos de pequeno e médio porte, cuja situação frágil e o trabalho um tanto silencioso apontam para outras formas de organização – ou até de desorganização.

A busca por outros meios de financiar suas atividades, de trabalhar coletivamente, de criar comunidades, de borrar fronteiras entre público e artista e de ampliar nosso entendimento do que é cultura, não deixa de ser uma tentativa conjunta de criar zonas de autonomia temporárias, que aguçam a sensibilidade social e ensaiam outras formas de existência. Esses bolsões de experimentação, espalhados por diferentes lugares do mundo, reinventam modos de estar, dinâmicas e usos de espaços comuns, para que não sejamos reduzidos a meros consumidores de serviços, ou de equipamentos coletivos já formatados.

O programa reúne, de 23 a 28 de outubro, iniciativas nacionais e internacionais que inscrevem suas práticas no campo ampliado da cultura (das artes visuais ao ativismo cultural), em torno de três inquietações principais: a primeira relacionada aos públicos (1), a segunda ao objeto de atuação (2) e a terceira ao tempo e aos espaços dessa atuação (3).

(1) Não seria o público dessas iniciativas antes o resultado de uma construção coletiva, que um alvo preexistente ao trabalho realizado? Ou seja, não estaríamos nós falando mais sobre a ideia de formação de redes do que sobre a ideia de criação de públicos? (2) Por que e para quem trabalhamos? Para promover um certo tipo de prática artística, reforçando a sociedade civil e inventando outras formas de fazer política? Para melhorar a vida do entorno e gerar renda para a comunidade? Essas perguntas propõem uma reestruturação dessas mesmas iniciativas, o que leva à terceira inquietação. (3) Se os públicos são agentes ativos dos resultados obtidos e se o objeto de atuação é um processo de construção constante, como essas iniciativas podem reinventar suas relações com o tempo e com o espaço? Quais outras genealogias e ancestralidades resgatar? Onde encontrar as muitas experiências hoje apagadas da história oficial da arte? Como adaptar a programação dos espaços culturais às urgências atuais (abrindo mão de exposições, cursos e temporadas)? Até que ponto podemos trabalhar sem espaço? Em que medida conseguimos frear o tempo em que vivemos?

É nesse contexto de esgarçamento da linguagem e da imaginação, que se fazem tão fundamentais iniciativas e coletivos cujas práticas vêm antes dos nomes. O desejo de produzir formatos, dinâmicas, relações e usos ainda sem nome que vão, pouco a pouco, encontrando seu dizer, parece ser hoje uma atuação tão valiosa, quanto incomum. Talvez por isso, o Laboratório para Estruturas Flexíveis seja mais um encontro que reúne algumas dessas iniciativas, tais como: Agência Solano Trindade(São Paulo), Aldeia Kalipety (São Paulo), Beta-Local (Porto Rico), Casa de Cultura Tainã (Campinhas), Chão Slz (São Luís), ColetivA Ocupação (São Paulo), Grupo Contrafilé (São Paulo), Clínica Aberta de Psicanálise (São Paulo), Cursinho Popular Transformação (São Paulo) DataLabe (Rio de Janeiro), Digital Art Lab CKC (Israel), Escola Nacional Florestan Fernandes (Guararema, São Paulo), G>E - Grupo de pesquisa em processos criativos e propostas estéticas (São Paulo), JA.CA - Centro de Arte e Tecnologia (Belo Horizonte), l'Asilo (Nápoles, Itália), PF (São Paulo/Rio de Janeiro), Ocupação Mauá (São Paulo) Oficina de Imaginação Política, PAF [=PerforimingArtForum] (França). Não por acaso, muitas dessas iniciativas reunidas são fronteiriças, sejam pelos lugares onde atuam, pelas suas práticas ou seus formatos organizacionais. Também foram convidados alguns pesquisadores e ativistas, cujo trabalho volta-se à gestão e organização de iniciativas culturais e militantes, tais como: Andrea Phillips (Suécia), Denétèm Touam Bona (França), Sofía Olascoaga (México) e TC Silva (São Paulo).


Em poucas palavras, o Laboratório para Estruturas Flexíveis, embora use um vocabulário questionável (flexibilidade, estruturas), procura identificar ferramentas que apontem para o que seria uma unidade mínima de institucionalização dessas iniciativas no sentido de que possam se consolidar sem se engessar; se reinventar sem se precarizar; se internacionalizar sem deixar de ser locais. Afinal de contas, o que essas estruturas pretendem é instituir novos mundos.



Como funciona? 


A semana do Laboratório para Estruturas Flexíveis se articula ao redor de almoços coletivos, conversas, oficinas, ações na Casa do Povo e fora dela que visam a troca de ferramentas entre iniciativas relacionada à cultura e ativismo.

O laboratório é voltado para profissionais da cultura, ativistas envolvidos em atividades coletivas, pesquisadores de modos de (auto)-organização, e contará tanto com atividades abertas ao público, como com ações fechadas para os participantes convidados. 

A programação se divide em quatro eixos principais:

Almoços coletivos
Artistas, pesquisadores, coletivos e gestores foram convidados para ativar o espaço da Metacozinha. Cada dia da semana um deles irá desenvolver uma refeição coletiva, propondo trocas e conversas com os participantes e público. 

Ferramentas de gestão 
Cada dia da semana dois gestores de espaços diferentes apresentam suas práticas e contam sobre o percurso da iniciativa onde trabalham. As conversas visam o compartilhamento de metodologias e ferramentas de trabalho, por isso tocam três eixos principais: 1/ relação com o público 2/ objeto de atuação 3/ como lidam com tempo e espaço dentro da iniciativa.

Conversas
Acadêmicos e ativistas apresentam suas pesquisas, todas elas ligadas à ideias de gestão, práticas culturais, imaginação política, ativismos e outras formas de organização para intervir nos contextos onde se inserem. 

Ações 
Performances, terapias, oficinas, consultorias, sarau e experimentos que acontecerão ao longo da semana e que colocam em prática reflexões acerca de modelos possíveis de gestão.



Programação


SEGUNDA-FEIRA
23/10


10h30
Apresentação da semana do Laboratório para Estruturas Flexíveis
>>Atividade aberta a todxs.

11h-12h
Terapia Política 
Com Valentina Desideri (PAF) 
A artista Valentina Desideri propõe uma sessão individual de aproximadamente uma hora, em que se discute um “problema político”, isto é, qualquer problema, pensamento ou pergunta que esteja sendo enfrentada diretamente e que será formulada como uma questão política. Não se trata de buscar uma cura ou um conserto, mas entender os “problemas” como geradores de pensamentos e formas de vida.
>> Inscrição por ordem de chegada. Será oferecida uma sessão por dia.

11h-12h
Diagnóstico Indie.Gestão
Com Francisca Caporali (JA.CA) e Samantha Moreira (Chão SLZ)
Sessões de aproximadamente uma hora são conduzidas por Francisca Caporali e Samantha Moreira para o entendimento e compartilhamento de estruturas de funcionamento de cada espaço. Trata-se de buscar táticas para tentar sobreviver em um mundo com estruturas pouco abertas à inovação ou àquilo que escapa ao padrão e, para tanto, o diagnóstico Indie.Gestão baseia-se na troca de experiências entre quem está à frente de iniciativas semelhantes.
>> Atividade reservada para xs convidadxs do projeto.

12h-14h
Almoço coletivo 
Com Contrafilé
O coletivo Contrafilé propõe uma “assembleia de olhar”, tentativa de criar um dispositivo que permita uma conversa que deixe aflorar assuntos micropolíticos.
>> Capacidade: 30 lugares. O almoço é preparado por todxs xs participantes e aberto para contribuições no dia.

15h
Ferramentas de gestão
Casa do Povo e o Povo da Casa
>> Atividade aberta a todxs.

17h30
Ferramentas de gestão
data_labe (Rio de Janeiro) e Raul Torres (São Paulo)
Selecionado na Residência para Coletivos, o data_labe apresenta um diagnóstico da sua pesquisa com Raul Torres, contador-ativista especializado em ferramentas de gestão para novas formas de organização e coletivos. 
>> Atividade aberta a todxs.


TERÇA-FEIRA
24/10


11h-12h
Terapia Política
Diagnóstico Indie.Gestão

12h-14h
Almoço coletivo 
Com Sofía Olascoaga
Curadora e pesquisadora da pedagogia radical, Sofía lança mão de experiências de trabalho coletivo e processos de aprendizagem autogeridos para propor um encontro na forma de almoço que pretende aprimorar a troca de ferramentas e saberes entre as diversas iniciativas presentes.
>> Capacidade: 30 lugares. O almoço é preparado por todxs xs participantes e aberto para contribuições no dia.

15h30
Saída para Kalipety
>> Atividade reservada para xs convidadxs do projeto.

20h
Casa de reza
Ferramentas de gestão
Agência Solano Trindade e Casa de Cultura Tainã (TC Silva e Layla Xavier Silva)
>> Atividade reservada para xs convidadxs do projeto.

QUARTA-FEIRA
25/10

>>Dia de atividades reservadas para xs convidadxs do projeto.

12h-14h
Almoço coletivo

15h
Ferramentas de gestão
Aldeia Kalipety (Jera Poty e Marquinho) e Escola Nacional Florestan Fernandes (Rosana Fernandes)

QUINTA-FEIRA
26/10


09h
Ações
Prospecção de recursos
Com Adriana Sumi, Ana Terra e Maria Dias
Adriana, Ana e Maria formam um conjunto que desenvolve e pesquisa práticas de diálogo. Propõem nessa ocasião um encontro para a prospecção dos recursos contidos na sabedoria invisível presente na história e no cotidiano de cada coletivo, se relacionando ao aproveitamento e à reconfiguração de situações de conflito.
>> Atividade conduzida pelxs convidadxs e o aberto a todxs. 

12h-14h
Almoço coletivo 
Com Beta-Local
>> Capacidade: 30 lugares. O almoço é preparado por todxs xs participantes e aberto para contribuições no dia.

15h
Ferramentas de gestão
Beta-Local (Michael Linares) e Chão SLZ (Samantha Moreira)
>> Atividade aberta a todxs.

19h
Conversa
Oficina de Imaginação Política com TC Silva e Dénètem Touam Bona + Lançamento do caderno da Oficina de Imaginação Política com os textos "A arte da fuga" e "Heroic Land” de Dénètem Touam Bona
TC Silva, membro de um quilombo em Campinas, e Dénètem Touam Bona, historiador da vida quilombola da Guiana Francesa, conversam sobre questões que atravessam historicamente a existência dos quilombos, como modos de organização, militância, diásporas, fronteiras e resistência.
>> Atividade aberta a todxs. Conversa em francês e português com tradução disponível.

20h30 
Conversa
Por uma gestão crítica
Com Andrea Phillips
Estudiosa de teorias de gestão radical e historiadora dos centros comunitários da Inglaterra dos anos 60, Andrea vem acompanhando diversas instituições de arte nos últimos anos com o objetivo de analisar seus funcionamentos para assim entender as novas formas de organização para as quais elas apontam.
>> Atividade aberta a todxs. Conversa em inglês com tradução simultânea disponível.

SEXTA-FEIRA
27/10


12h-14h
Almoço coletivo
PF [PRATO FEITO | PRETTY FAIR | PROPER FUEL] 
Com Kadija de Paula
>> Atividade aberta a todxs. É sugerida uma contribuição espontânea a partir do orçamento aberto compartilhado pela artista antes do almoço ser servido. 

15h
Ferramentas de gestão
PAF (Valentina Desideri) e JA.CA (Francisca Caporali)
>> Atividade aberta a todxs. 

19h
Ações
TRANSarau: Décima Transarau do POVO
Com Coletivo Transformação 
>> Atividade aberta a todxs. 

SÁBADO
28/10


10-12h
Ações
Ateliê Vivo
Com G>E 
>> Atividade reservada para xs convidadxs do projeto.

12h-14h
Almoço coletivo 
Com Amilcar Packer e Nice (moradora da Ocupação Mauá) 
>> Capacidade: 30 lugares. O almoço é preparado por todxs xs participantes e aberto para contribuições no dia.

16h 
Ferramentas de gestão
Digital Art Lab (Eyal Danon) e l’Asilo (Pierluigi Vattimo)
>> Atividade aberta a todxs. Conversa em inglês com tradução simultânea disponível.

18h
Ações
Abertura processo: o que aconteceu desde que pulamos os muros?
Com ColetivA Ocupação
A ColetivA Ocupação, grupo de performance de secundaristas e estudantes, cria uma performance-conversa a partir da qual dividem as experiências de auto-organização nas ocupações e suas conexões dentro do próprio grupo.
>> Atividade aberta a todxs

19h
Conversa
Elogio da Indocilidade
Com Dénètem Touam Bona 
Por meio da história de escravos indolentes, Dénètem presta homenagem em particular à resistência popular dos ameríndios e dos afrodescendentes. Aqueles que foram durante muito percebidos como "selvagens", negando-lhes qualquer forma de ação e vida política, têm suas próprias utopias, suas próprias espiritualidades políticas. A intervenção, pontuada por trechos musicais e vídeos, será também uma jornada musical.
>> Atividade aberta a todxs

21h 
Ações
CAVEMUSIC 
Com Daniela Bershan
Discotecagem somática para pessoas horizontais - edição remota experimental
>> Atividade aberta a todxs




O Laboratório para Estruturas Flexíveis é um projeto da Casa do Povo contemplado pelo programa RUMOS 2015-2016 do Itaú Cultural e conta com o apoio do PROAC Espaços Independentes 2016. 

Apoio cultural: Institut Français/Consulado Geral da França