O regresso de Amílcar Cabral e Spell Reel

 Apresentação dos filmes O regresso de Amílcar Cabral e Speel Reel seguido de uma conversa com Sana na N'Hada e Filipa César.

LUTA CA CABA INDA é uma expressão crioula que se traduz por "A LUTA AINDA NÃO ACABOU". É também o título de um filme inacabado da coleção do Instituto Nacional do Cinema e Audiovisual (Instituto Nacional do Cinema e Audiovisual, INCA), em Bissau, - título esse que assombra - o acabamento do filme, da luta e possivelmente deste projeto. A luta foi pela Independência da Guiné-Bissau do colonialismo português. O projeto se baseia em pesquisas colaborativas em torno dos conteúdos do arquivo de filme do INCA, imagens e sons produzidos para o movimento de libertação. Nos apropriamos do título e do seu feitiço para uma série de apresentações públicas e eventos discursivos utilizados ​​para canalizar os conteúdos desse corpus fragmentado e escolhemos acolher suas contradições. Nesse contexto, "nós" sempre significamos os cineastas guineenses e o grupo que construiu uma aliança a partir do momento em que o material foi catalogado pela primeira vez em Bissau, por meio de sua digitalização em Berlim e até as múltiplas exibições e discussões em dezenas de locais ao longo dos passados seis anos. LUTA CA CABA INDA mostrou-se a nós como uma força irrelevante e irreverente, um projétil, uma cápsula do tempo que viaja há décadas, séculos, e aproveitamos a chance de se juntar a sua jornada."



O regresso de Amílcar Cabral
Sana na N'Hada e outros
(16 mm e HD/ colorido/som/30 min)

O filme O Regresso de Amílcar Cabral mostra a cerimônia solene em torno do retorno dos restos de Amílcar Cabral de Conakry, onde foi assassinado em janeiro de 1973, para Bissau, em 1976. Foi um trabalho coletivo dos cineastas guineenses e um dos poucos documentários que conseguiram terminar. De acordo com Sana na N'Hada, o objetivo original deste filme foi convidar a diáspora guinéense a retornar à recém-liberada nação. A documentação funeral foi editada com músicas guineenses e material de arquivo registrando Cabral se dirigindo a lutador_s da liberdade durante a guerrilha. A convocação do lamento neste filme é um gesto para provocar uma multiplicidade de retornos.


Spell Reel
Um filme coletivo
Montagem e ensaio de Filipa César
Com Anita Fernandez, Flora Gomes, Sana na N’Hada et al.
(16 mm e HD/colorido/som/96 min)

Um arquivo de material audiovisual em Bissau. À beira da ruína completa, as imagens testemunham o nascimento do cinema Guineense enquanto parte da visão descolonizadora de Amílcar Cabral, o líder da libertação assassinado em 1973. Em colaboração com os realizadores Guineenses Sana na N’Hada e Flora Gomes, e muitos aliados, Filipa César imagina uma viagem onde a matéria frágil do passado opera como um prisma visionário de fragmentos por onde se olha. Digitalizado em Berlim, exibido e comentado ao vivo, o arquivo convoca debates, narrativas e previsões. Das aldeias mais isoladas da Guiné Bissau às capitais europeias, as bobines silenciosas são agora o lugar onde as pessoas procuram antídotos para um mundo em crise.



Filipa César é artista e cineasta, e se interessa pelos aspectos fictícios do documentário, nas fronteiras porosas entre o cinema e sua recepção, e a política e a poética inerentes à imagem em movimento. Desde 2011, estuda as origens do cinema do Movimento de Libertação Africana na Guiné Bissau como um laboratório de resistência às epistemologias governamentais. César estreou seu primeiro longa-metragem, filme-ensaio Speel Reel na seção Forum dos 67. Berlinale, 2017. Foram exibidas e exibições selecionadas na: 29ª Bienal de São Paulo, 2010; Manifesta 8, Cartagena, 2010; Haus der Kulturen der Welt, Berlim, 2011-15; Jeu de Paume, Paris, 2012; Kunstwerke, Berlim, 2013; SAAVY Contemporary, Berlin 2014-15; Tensta konsthall, Spånga, 2015; Mumok, Viena, 2016; Bienal Contour 8, Mechelen e Gasworks, Londres, MoMA, Nova York, 2017.

Sana na N'Hada é uma figura crucial no projeto de pesquisa "LUTA CA CABA INDA" e co-autor da maioria das exibições públicas até o momento. N'Hada participou da luta de libertação guineense contra o colonialismo português, na qual ele primeiramente participou como paramédico e depois como cineasta. Ele se tornou um pioneiro do cinema guineense quando, em 1967, junto com outros três estudantes guineenses, teve a oportunidade de aprender a fazer filmes no instituto de cinema cubano ICAIC, aproveitando um acordo entre Amílcar Cabral e Fidel Castro. Ao retornar em 1972, o grupo iniciou uma práxis de cinema regular a partir da qual surgiu o instituto de cinema guineense INCA. Sana na N'Hada co-autor da maioria dos filmes e material hoje preservados no arquivo INCA. Sua filmografia inclui os documentários O Regresso de Amílcar Cabral (1976), Les Jours d'Ancono (1978) e Fanado (1984), o filme de ficção Xime (1994), selecionado para o Festival de Cinema de Cannes e, mais recentemente, Bissau d'Isabel (2005) e Kadjike (2012). Sana na N'Hada trabalhou com diversos cineastas, incluindo Anita Fernandez, Chris Marker, Sarah Maldoror, Joop va Wijk, Leyla Assaf-Tengroth e regularmente com sua colega de longo prazo Flora Gomes.

Exibição: O regresso de Amílcar cabral e Spell Reel e conversa com Sana na N'Hada e Filipa César
05 de outubro - 19h
Aberto ao público.